24.3.09

O mundo que somos por dentro

Um momento imparcial de plena reflexão interior. Uma paisagem estática de cheiro de rua, de cores desmaiadas, de brisa morna que cola os cabelos de sol aos lábios já secos:

Existiremos para um fim, ou seremos o fim de algo que nos excede?
Que essência move cada passo, cada olhar, cada medo?
O que me habita, há em mim e sou eu?

Um cansaço…
de carregar o fardo das emoções alheias, da tentativa utópica de incorporação das sensações que não são minhas e quero compreender.
O peso de uma inconstante dormência de espírito.

Fecho os olhos, irreverente, à minha miudeza de gente neste todo onde habito e não compreendo.
E não sei o que sinto, nem o que quero sentir.
Não sei o que penso nem o que sou.

Qualquer coisa que tenha vindo cá fazer, sinto que ainda não o fiz.
Não sei onde me procurar, nem o que quero encontrar.
O mundo que somos por dentro…

Não sei um motivo para ir, mas sei que não posso ficar.
O medo de ficar, o pânico de partir.

A incessante procura da tranquilidade que não chega, do sorriso que não fica.
É todo o mistério do que nada dura.
Coisas que não chegam a ser música, mas são saudade e me tiram o ar numa recordação.

Sim, tudo atrai, tudo é alheio e tudo passa...

Os infinitos porquês sem resposta.
O lugar que não conheço.
A incessante procura de mim mesma…

8.3.09

Dormência

Um desejo imortal de ser, de criar, de sentir.

É na constante incerteza do que sou e ao que pertenço que escrevo novamente numa inquietação frenética de alma.

Consumo-me no que não sinto.
Encontro-me na ilusão de sensações que eu própria crio de mim, e para mim.
Existo na solidão de um entendimento que é só meu, não por carência perceptiva dos demais mas talvez pela própria dúvida individual do que sou e ao que me projecto.
Revejo-me numa música, no cheiro de uma paisagem, num livro, num chão, na saudade do que já não é, do que já não sou.

Quero rasgar cada sonho, cada aspiração, cada momento.
Hoje sou escura e nocturna.

É consciente da terminalidade inevitável de todos os sonhos que me abandono a tudo o que sinto.
A eternidade utópica de um momento.
O segundo de felicidade que jamais se perpetua.
O cheiro dos dias que nascem para ser mágicos.
A nudez das noites que me pesa o que não vivi, o que não sonhei.

Uma vastidão de sentimentos à espera de um lugar de alma, que por agora apenas se realizam em desassossegos.

A hesitação de tudo o que nos move é a dormência involuntária de todos os sentidos.