16.1.10

i love you my hope

um bocado de adeus. É um pedaço de inverno que se desprendeu de mim. É o grito que se ignora. É a mania estúpida de se viver de sonhos. É por isso um adeus. Breve como tudo o que restou de nós.'

Uma noite vulgar. O calor do teu cheiro nos lençóis ainda frios. Sonhar os teus sonhos enquanto me apertas em ti. As manhãs que são só tuas. A passividade dos dias q anoitecem para já não te ter.

Há uma magoa q não é de coisas do coração. Coisas tuas. Retalhos de vício antigo, fúteis e insignificantes. Fáceis de esquecer, q não pesam na memória nem no acto. Mas têm qq coisa q faz doer, q consome, q faz n poder perdoar, perpetuando-se no tempo, arrastando rancores e justificações forçadas. Sepultei-os sem hesitar na ideia única de querer voltar a ti. Rasguei os dias em vão…

Fragmentos de vida, intemporais mas remotos, q ferem pela brutalidade com que te moldaram a personalidade e te obrigam a ser assim, ou de outra maneira. O grito mudo da incompreensão alheia do que nos é mais profundo. Amor-ódio.

Existe um desamparo. Um vazio ao meu abandono. O que carece do abraço que não foi. Não sou eu, és tu. É por ti q receias, nesse teu extravio de viver. O teu toque inquieto onde te tentas libertar da perda antecipada. As palavras q não ousas dizer. Os sentimentos que não ousas sentir. A dualidade de todas as horas. O dia q nasceu para te arrancar de mim.

Quando quiseres o que não viste, vais tb querer o q chegaste a ver. Tudo o resto é ilusão e desespero. Para ti a verdade de td o que não sabes reside nas entrelinhas de uma música. Porque para ti tudo é leve e contornável. A realidade já me parece demasiado improvável para ainda haver outras. E de ti não saberei o que te agarra à vida, como sempre.

Tropecei de repente num espaço de lucidez, dentro da minha loucura, e tremi diante da incerteza do futuro. A inércia de hoje contrasta com a voracidade do esquecimento, que pouco a pouco consome sem piedade as lembranças.

Talvez te encontres. Talvez possa existir noutro sorriso. Talvez me procures no beijo que não é meu. Talvez não seja tarde para te desejar outra vez. Talvez, quando te doer. Talvez eu quisesse esperar. Talvez não fosse tarde de mais . . . porque voei, com asas da tua vontade .


Não sei onde te gosto, mas sei que sim.

Quero adormecer, não por cansaço mas por saudade dos sonhos.

Qualquer coisa de dormente preenche o pensamento, numa vontade impertinente de estar em todo o lado menos aqui.



(Cansada de me convencer que apesar do teu individualismo, estava a tal inevitabilidade a que nos submetemos e chamamos amor, pensei que, com todo o amor que sentia por ti, te iria suavizar e de alguma forma fazer parte do teu equilíbrio, tornando-me subtilmente indispensável. Nunca pensei enganar-me tanto. Mas só agora percebo que o teu amor por mim não foi uma inevitabilidade, mas uma escolha. Alguém que te chamou a atenção e que, um dia, decidiste que querias atravessar, com a intuição certeira de um animal selvagem que procura refúgio temporário, quando está cansado. Sei que não vinhas a fugir de nada, nem à procura de coisa nenhuma. Mas acho que, quando eras pequeno, te arrancaram uma parte de ti, e desde então ficaste incompleto e perdeste, quem sabe talvez para sempre, a capacidade de adormecer nos braços de alguém sem que penses no perigo de ficar na armadilha do carinho para todo o sempre.)

4.1.10

Lugar

O meu Lugar…


Um projecto de alma que existe numa madrugada qualquer.

O nervosismo à míngua de um olhar que não é meu.

O beijo.

A recordação do que nunca foi.

A saudade do poderia ter sido.

O perfume crescente de uma camisa desprendida de um corpo que apetece beijar.

Um acordar…

São lembranças. Do cheiro… Dos lugares simples que outrora viver neles tinha uma importância extrema e inquieta. Como se todas as vezes fossem uma conquista primária. Um lugar onde mais ng poderia entender o valor daqueles momentos fugazes. Era o Eu todo uno, e toda eu.. Ali.

A voracidade de tudo o que atrai, de tudo o que prende, é a intolerável incapacidade de guardar em mim tudo o que um dia foi certeza. Um lugar onde eu sou Eu, e só eu sei, e só eu sinto.

Um conforto de uma presença alheia, quando mesmo que distante cabe no coração da mesma maneira que uma palavra distante de uma ausência física.

Mas será que só eu vejo? Que só eu sinto? Que só eu desejo? … Um sentimento de solidão errado e talvez enganado. Querer deixar tudo como está e esquecer que ainda se pode voltar atrás. Os caminhos fáceis, tiraram afinal todo o verdadeiro valor do que foi abandonado? E os difíceis por doerem mais preservam-nos a identidade e sustentam o valor de algo já perdido? Eu prefiro então aqui… no meu Lugar.

A imparcialidade das coisas que nos esquecemos de viver é o alento esquecido de uma alma que não sabe estar.

Pequeninas coisas, tão intensas, tão simples, tão desejadas, tão amadas, tão esquecidas, tão incompreendidas, tão importantes, tão distantes…

O meu Lugar… A minha fuga. Perdida, entorpecida. Plena, amada. Meu!

Ousadia é achar que não posso ser diferente. Porque, com toda a modéstia, ninguém sabe de um Lugar como o meu.