8.9.09

Escrever

É tinta de caneta, é ideia caída, é jeito de doer.

É orgulho vencido, e dói no coração.

É folha de papel, é o minuto mais puro.

É por tudo, é para nada.

É um nó, é para fora.

É desabafo mudo, é ao que a palavra não chega.

É um dia inglório, é noite sem sossego.

Onde ter alma não basta, onde o silêncio é mundo e todas as vozes ecoam dentro de mim.

13.6.09

Sopro

Mais um por do sol em desassossego.

Um nó na garganta. Uma dúvida. Uma renuncia de amor-próprio. Um abandono de querer. Uma mão vazia. Uma incerteza. Um chão de céu, de nuvem, de nada.

Não há nada mais frágil que uma alma que acontece no mundo e não sabe adormecer.

O mais que faço é olhar-me, estupidamente, perplexa, tentando encontrar um motivo para hoje o dia me doer.

Dobro a vida por onde vivi, à procura de respostas. Passo ao lado do que sou. Não chego a acreditar no que acredito. Falho-me em propósito, so para concluir que não era nem isto nem aquilo.

Há qualquer coisa em mim em constante equilíbrio instável que não me deixa em sossego.

E estas palavras… que não são mais que sombras a ocuparem tudo, e que não consigo deter. Um projecto de alma aflita. De nada e para nada.

Uma sensação de sono que me desmaia em pensamentos desconexos, num vício doentio de alcançar o que será sempre horizonte. Como um sopro que flui com o tempo, sem ocupar qualquer lugar, fugindo para dentro do silêncio. Volátil, como música.

Sou o cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões. O ante cansaço de ter que as ter para perde-las, a magoa de as ter tido. Sou o beijo que dei e que perdi. Uma suposição de sentir. Uma impertinência de não querer simplesmente ser um dia-a-dia, como qualquer outro comum mortal.

E em nada isto se significa…

Apenas mais um desabafo… fugaz, como tudo o que é sonho.

Ficam as vozes misturadas da minha subconsciência.

Mas que importa?

Falta-me o descaramento para falar de alguém que não sou.

23.5.09

fica tu com o resto do mundo

'Pega na minha mão e atravessa comigo para fora do mundo. Suspende o tempo que engana a realidade. Abraça-me. Fica. Comigo. Deixa-me sonhar-te. Sem restrições. Sem impossíveis. Deixa que exista um pedaço de qualquer coisa onde eu possa apenas ficar quieta, onde pensar em ti não perturbe o remoer dos dias. Deixa-me as horas mortas da madrugada, e o resto do dia será o teu. Terei o mesmo sorriso de sempre. Deixa-me um recanto de história para que eu possa sentir saudade e voltar sempre que o mundo lá fora doa demais.

Eu, de mim, só tenho palavras... fica tu com o resto do mundo.'

12.5.09

O espaço entre as coisas

Misturo-me com as coisas do mundo, em memórias e sonhos acordados.Queria viver da vida, e de mais nada.

É em vão que tento dizer em que consiste aquela poderosa presente ausência que oprime e agarra. Nunca está onde está, mas sempre um pouco mais longe.

São sentimentos confusos num Eu que já não sei.São palavras que não se sabem dizer.

Estamos constantemente a distorcer factos para os adaptar às teorias, em vez de adaptar as teorias aos factos.

Falsas sensações que só se sentem se acreditarmos e cegarmos às evidências, num conforto acreditado que apenas existe nas coisas que sabemos ser mentira.

Raramente existo assim, compenetrada em ser quem agarra com as mãos o que não lhe pertencerá nunca..

Um dia dou o mundo, dou-me a mim. Não penso, apenas sou.Noutro existo, somente, cativa de tudo o resto que respira o mesmo ar que eu, perco-me nas formas que o sol traz, olho o mundo mas não vejo… vivo para dentro e ninguém sonha como eu.

Existo.

Paro.

Volvo.

Deixo o tempo fluir, abandono-me ao pensamento...

Foi assim que me encontrei no mundo, ou que o mundo se encontrou em mim.

Vivo numa realidade do que sou apenas de consciência, e que foge à percepção alheia, num mundo onde existo sozinha mas que quero ser para fora e por qualquer razão não consigo.

Habito a ansiedade de todas as horas, no lugar para onde vão as coisas que vivi, no espaço entre as coisas.

24.3.09

O mundo que somos por dentro

Um momento imparcial de plena reflexão interior. Uma paisagem estática de cheiro de rua, de cores desmaiadas, de brisa morna que cola os cabelos de sol aos lábios já secos:

Existiremos para um fim, ou seremos o fim de algo que nos excede?
Que essência move cada passo, cada olhar, cada medo?
O que me habita, há em mim e sou eu?

Um cansaço…
de carregar o fardo das emoções alheias, da tentativa utópica de incorporação das sensações que não são minhas e quero compreender.
O peso de uma inconstante dormência de espírito.

Fecho os olhos, irreverente, à minha miudeza de gente neste todo onde habito e não compreendo.
E não sei o que sinto, nem o que quero sentir.
Não sei o que penso nem o que sou.

Qualquer coisa que tenha vindo cá fazer, sinto que ainda não o fiz.
Não sei onde me procurar, nem o que quero encontrar.
O mundo que somos por dentro…

Não sei um motivo para ir, mas sei que não posso ficar.
O medo de ficar, o pânico de partir.

A incessante procura da tranquilidade que não chega, do sorriso que não fica.
É todo o mistério do que nada dura.
Coisas que não chegam a ser música, mas são saudade e me tiram o ar numa recordação.

Sim, tudo atrai, tudo é alheio e tudo passa...

Os infinitos porquês sem resposta.
O lugar que não conheço.
A incessante procura de mim mesma…

8.3.09

Dormência

Um desejo imortal de ser, de criar, de sentir.

É na constante incerteza do que sou e ao que pertenço que escrevo novamente numa inquietação frenética de alma.

Consumo-me no que não sinto.
Encontro-me na ilusão de sensações que eu própria crio de mim, e para mim.
Existo na solidão de um entendimento que é só meu, não por carência perceptiva dos demais mas talvez pela própria dúvida individual do que sou e ao que me projecto.
Revejo-me numa música, no cheiro de uma paisagem, num livro, num chão, na saudade do que já não é, do que já não sou.

Quero rasgar cada sonho, cada aspiração, cada momento.
Hoje sou escura e nocturna.

É consciente da terminalidade inevitável de todos os sonhos que me abandono a tudo o que sinto.
A eternidade utópica de um momento.
O segundo de felicidade que jamais se perpetua.
O cheiro dos dias que nascem para ser mágicos.
A nudez das noites que me pesa o que não vivi, o que não sonhei.

Uma vastidão de sentimentos à espera de um lugar de alma, que por agora apenas se realizam em desassossegos.

A hesitação de tudo o que nos move é a dormência involuntária de todos os sentidos.

26.2.09

Eu

Um olhar imutável sobre o mundo que persiste.
Um querer volver da alma apertada.
Procuro-me num horizonte de surpresa, de mar, de brandura.
Deambulo entre o quotidiano dos que não sonham como eu procurando o comum que entre nós não vive.
Encontro-me na música irredutível que me balança o espírito.
As minhas perguntas sem resposta, o pesar do que me faz falta.
O que me faz falta?
... uma música nova
... que anseio em encontrar nas mãos que não são minhas e num sorriso que me beije uma história que nunca foi contada.
É uma inquietação mansa.
Mas a música, a música não pára de tocar...