13.6.09

Sopro

Mais um por do sol em desassossego.

Um nó na garganta. Uma dúvida. Uma renuncia de amor-próprio. Um abandono de querer. Uma mão vazia. Uma incerteza. Um chão de céu, de nuvem, de nada.

Não há nada mais frágil que uma alma que acontece no mundo e não sabe adormecer.

O mais que faço é olhar-me, estupidamente, perplexa, tentando encontrar um motivo para hoje o dia me doer.

Dobro a vida por onde vivi, à procura de respostas. Passo ao lado do que sou. Não chego a acreditar no que acredito. Falho-me em propósito, so para concluir que não era nem isto nem aquilo.

Há qualquer coisa em mim em constante equilíbrio instável que não me deixa em sossego.

E estas palavras… que não são mais que sombras a ocuparem tudo, e que não consigo deter. Um projecto de alma aflita. De nada e para nada.

Uma sensação de sono que me desmaia em pensamentos desconexos, num vício doentio de alcançar o que será sempre horizonte. Como um sopro que flui com o tempo, sem ocupar qualquer lugar, fugindo para dentro do silêncio. Volátil, como música.

Sou o cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões. O ante cansaço de ter que as ter para perde-las, a magoa de as ter tido. Sou o beijo que dei e que perdi. Uma suposição de sentir. Uma impertinência de não querer simplesmente ser um dia-a-dia, como qualquer outro comum mortal.

E em nada isto se significa…

Apenas mais um desabafo… fugaz, como tudo o que é sonho.

Ficam as vozes misturadas da minha subconsciência.

Mas que importa?

Falta-me o descaramento para falar de alguém que não sou.

1 comentário:

  1. Álvaro de Campos - Esta Velha Angústia

    Esta velha angústia,
    Esta angústia que trago há séculos em mim,
    Transbordou da vasilha,
    Em lágrimas, em grandes imaginações,
    Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
    Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

    Transbordou.
    Mal sei como conduzir-me na vida
    Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
    Se ao menos endoidecesse deveras!
    Mas não: é este estar entre,
    Este quase,
    Este poder ser que...,
    Isto.

    Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
    Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
    Estou doido a frio,
    Estou lúcido e louco,
    Estou alheio a tudo e igual a todos:
    Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
    Porque não são sonhos.
    Estou assim...

    Pobre velha casa da minha infância perdida!
    Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
    Que é do teu menino? Está maluco.
    Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
    Está maluco.
    Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

    Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
    Por exemplo, por aquele manipanso
    Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
    Era feiíssimo, era grotesco,
    Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
    Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
    Júpiter, Jeová, a Humanidade -
    Qualquer serviria,
    Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

    Estala, coração de vidro pintado!

    ResponderEliminar